Colecionando ferramentas
e outras ginásticas mentais
Cheguei no ponto mais famoso da cidade cinco minutos antes do horário combinado. Eu estava prestes a encontrar meu primo de segundo grau pela primeira vez, e tudo que eu conseguia pensar era: o que diabos se conversa com um familiar que você nunca viu na vida?
O relógio deu 5pm enquanto eu torcia para ele não aparecer. No fim da rua vejo um homem de cabelos pretos compridos amarrados num rabinho de cavalo baixo, um cavanhaque e uma calça larga meio hippie. Na hora eu pensei "ah pronto", horrorizada com os infinitos silêncios constrangedores que iríamos passar numa conversa que, na minha cabeça, duraria meia hora.
Três horas depois, saindo da nossa terceira parada, voltamos para o carro do Antônio depois de um tour pelo cemitério, onde vi pela primeira vez a lápide do meu bisavô. Antônio não sabia onde ela ficava de cabeça, mas sua mãe conseguiu guiá-lo na chamada de vídeo com mais precisão do que eu poderia guiar alguém para a minha própria cozinha.
Nossa última parada foi a casa de Antonietta, minha tia de segundo grau, onde ela me esperava com um sorrisão no rosto, pronta para me oferecer um espresso e abrir um álbum inteiro de histórias sobre os trinta anos que meu avô passou ali naquela cidade. Quando descobriu que eu falava italiano, ligou correndo para a filha da madrinha do meu pai, que chegou trazendo docinhos típicos da região que acompanharam muito bem o café que já tinha virado limoncello feito em casa.
Quando comecei a estudar italiano, no começo desse ano, minhas pretenções eram todas relacionadas a comida. Eu só queria pedir um sorvete pronunciando pistacchio (pis-tá-quio! eu sei, chocante) do jeito certo e fazer graça com o garçom de alguma pizzaria. Jamais passou pela minha cabeça que isso me levaria a casa de uma tia na Itália, conversando sobre histórias que conectam pedaços do passado da minha família, e um convite para voltar e passar alguns meses lá. Aprender italiano me abriu uma porta que eu nem sabia que existia, que eu simplesmente não enxergava até o começo desse ano.
Aprender mais para enxergar o que hoje ainda está invisível
Desde Julho desse ano me considero oficialmente em transição de carreira. Eu não sei exatamente onde quero chegar, já que eu não tenho uma carreira específica em mente até o momento, então tudo que tem me restado é aprender coisas diferentes. É uma coisa meio RPG, que você vai ganhando XP (experiência) conforme joga o jogo, e aí pode usar as ferramentas que você ganhou em missões no futuro.
Quando aprendi a dirigir, nunca imaginei que ia me ser útil treze anos depois numa ilha vulcânica na Espanha. Quando trabalhei remoto pela primeira vez, num jardim em Nova Jersey em 2012, aquilo me abriu portas para pensar que eu poderia fazer isso de qualquer lugar. Quando aprendi a criar sites em HTML aos 13 anos, também não achei que ia passar metade da minha vida tentando não quebrar blogs no WordPress. E, quando aprendi a escalar, não pensei que isso fosse me salvar de um ataque de um urso em uma trilha nas montanhas (mentira, isso não aconteceu, mas PODERIA…).
No mar de incertezas profissionais que tenho vivido, o que sei é que qualquer coisa nova que eu aprenda será útil de alguma forma lá na frente, e eu sei que nesse momento eu não sou capaz de enxergar de qual forma isso vai acontecer.
Ginástica mental de uma cética
Eu não sou exatamente uma pessoa ~mística~. Cresci numa família que acredita mais em números do que em vibrações cósmicas. Sou extremamente prática. Só que eu adoraria pensar mais no que eu quero e menos nos problemas das coisas que eu quero. Até porque cada noite mal dormida, cada ruminação de ansiedade que eu já tive, só me trouxe solução para problemas que não aconteceram.
O que você pensa vira o que você diz, e o que você diz vira o que você faz, e o que você faz vira quem você é.
Ouvi essa frase num podcast essa semana. Essa forma de pensar conseguiu passar levemente pela minha casca cínica. O que eu penso se torna o que eu sou. E, já que eu vou pensar horrores de qualquer jeito, é melhor que eu passe mais tempo pensando no que eu quero do que pensando em tudo que pode dar errado.
É uma ginástica mental, não vou mentir. Porque minha cabeça tem o dom de ir direto pro desastre. E eu estou exausta de só pensar no desastre. Especialmente quando minha vida é uma grande interrogação como tem sido nesse ano.
Sem saber direito para onde ir profissionalmente, eu comecei a pensar muito no lugar que eu quero estar. Enxergar onde eu quero viver, como é a casa, qual é a minha rotina, quais são as coisas que eu faço. Cada vez que eu faço esse exercício, tenho um pouquinho mais de clareza do que eu quero daqui pra frente (e também do que eu não quero). Consigo enxergar as coisas de forma mais palpável, ver mais detalhes do cenário, pensar na decoração. Viver ali um pouquinho.
Continuo sem respostas prontas.
Mas sei que cada vez que aprendo algo novo ou me permito imaginar possibilidades, aparece uma nova portinha que eu nem sabia que existia.
E, por enquanto, isso já é suficiente.





Que delícia de texto! Eu me divirto com você, Debbie! kkkkk
E sobre a transição de carreira: apenas continue se movimentando! Vai dar tudo certo!!
Ai Debbie, publica seus textos direto no Insta também pra gente divulgar ! Tipo na legenda, mais pessoas precisam ler suas histórias e reflexões ❤️